'Ninguém sabe como será o futuro': o impacto da COVID-19 na cena cultural de NY

'Ninguém sabe como será o futuro': o impacto da COVID-19 na cena cultural de NY

O Lincoln Center, casa da filarmônica e do balé de Nova York, está fechado até ao menos 7 de junho. O que ainda não há data marcada é a volta do setor à normalidade.

Nova York é um dos mais importantes centros culturais do mundo. É também o atual epicentro da pandemia do novo coronavírus, com 160.489 casos confirmados e 17.515 mortes só na cidade, de acordo com os dados compilados pela Universidade Johns Hopkins.

 

Marco Antonio Nakata, cônsul-geral adjunto da embaixada brasileira na metrópole, conta que os efeitos da doença sobre a vida cultural nova-iorquina são imensuráveis. "As artes em geral contribuem muito para a economia de um país, imagina o impacto que uma cidade como Nova York tem em termos de criação de emprego, atração de turista e geração de riqueza", diz. "A situação é dramática no mundo cultural. A Broadway está fechada, as salas de concerto, cinemas, galerias... não há nada que possa ser frequentado agora".

Com a exceção dos estabelecimentos essenciais, todo o comércio da cidade está fechado desde 22 de março.

A repercussão de que fala Nakata foi sentida por Paula Abreu, curadora de música do festival Summer Stage NYC. "A programação foi completamente cancelada", conta. "O trabalho todo que a gente colocou durante nove meses para criar uma temporada provavelmente vai para o espaço".

Giampaolo Bianconi, curador do MoMA (Museu de Arte Moderna), diz que nem os especialistas sabem prever como será a recuperação. "Artistas e curadores são pessoas que trabalham com a ideia de ter um público, e ninguém sabe como vai ser ter um público no mesmo espaço no futuro".

Uma associação que tem escritórios em Nova York e Washington falou com 11 mil empresas ligadas ao setor de exposições e de artes do Estados Unidos e chegou a conclusão que houve uma redução de US$ 4,5 bilhões (aproximadamente R$25,5 bi) no faturamento do setor de artes por causa da COVID-19 —e a previsão é que este número volte aos patamares normais só depois de setembro.

"Nova York recebe um milhão de turistas brasileiros por ano", diz Nakata, da embaixada. "Dependendo do número de meses que a cidade ficar fechada, evidentemente este número vai cair. Muitos turistas brasileiros vem à Nova York para frequentar museus, galerias, ir à Broadway".

Com 41 casas de espetáculo em poucas ruas, a Broadway é o coração das artes cênicas na costa leste dos Estados Unidos. Na temporada 2018/2019, foram vendidos 14,8 milhões de ingresso, com faturamento de US$ 1,8 bilhão. Com a paralisação, muitos roteiros foram engavetados.
Em um dos teatros, 70% dos funcionários ou foram demitidos ou estão em licença não-remunerada. Algo semelhante aconteceu no Metropolitan Museum of Art, que já dispensou 81 empregados —principalmente aqueles ligados ao atendimento ao visitante.

Para reverter esse cenário, há iniciativas de apoio aos artistas. Roberta Pereira, produtora de teatro na cidade, conta que  fundações de fomento às artes formaram um fundo para apoiar os afetados pela COVID-19. "São várias, a NY Community, Mellow Foundation, que falaram para todas as pessoas que trabalham com arte poderiam aplicar. Nova York foi o primeiro estado a ter isso", diz. "Você precisa ter dinheiro para pagar as contas".

A companhia de Pereira se candidatou ao apoio e foi contemplada. "O mais impactante é que o dinheiro saiu bem rápido, eles mandam o dinheiro na nossa conta".

Há aspectos culturais que têm se beneficiado deste momento de quarentena: os conteúdos digitais.

"O conteúdo digital é uma opção viável e relativamente fácil de implementar. É saudável para o ecossistema da música que continue acontecendo, mas não é a mesma experiência que o presencial", opina Abreu, do festival Summer Stage. "Muitas empresas têm revisto a estratégia para criar conteúdo online, mas outras não, estão aguardando. É um misto e não tem muito uma fórmula certa, mas as empresas que estão mantendo os funcionários têm tentado se reinventar dentro do possível".

Fonte: Marcelo Favalli e Fernando Henrique, da CNN, em Nova York